Não me lembro quando foi a última vez que me vesti para um casamento. Separei meu vestido,arrumei o cabelo, peguei minha bolsa e saí. Meu coração dava pulos ansiosos, como se fosse eu a noiva.
Minha tia estava linda. Vestido branco longo (que eu ajudei a escolher), flor no cabelo e um sorriso de felicidade sublime, que só a maturidade oferece.
Ao contrário do que normalmente acontece, o casamento dela não foi um rito de passagem - ninguém ali estava deixando a vida de solteiro para ingressar na vida conjugal. Ela já vivia maritalmente há 18 anos, mas só agora a oficialização do casamento foi desejada.
Foi bonito ver os noivos. Aquele momento era a consagração festiva de anos de um relacionamento bem construído. Era a celebração do amor em tempos de delicadeza.
Num dia quente de verão, uma lista corrida e cheia de exigências foi redescoberta no fundo de um coração:
Se ele fosse inteligente...
Se ele não fumasse...
Se ele fosse charmoso...
Se ele tivesse mais atitude...
Se ele fosse menos galinha...
Se ele não fosse tão metódico...
Se ele bebesse menos cerveja...
Se ele não tivesse uma tatuagem no pescoço...
Se ele fosse bem humorado...
Se ele fosse menos neurótico...
Se ele não morasse em outro país...
Era tanto "se" que não cabia mais nada ali. E, ao mesmo tempo, era tudo tão vazio.
Era hora de substituir o "se". Era hora de arrumar aquele lugar. Abrir-se para os desafios do inesperado, do diferente, da aceitação do outro como de fato é.
É hora de jogar fora os romances cheios de príncipes e princesas. É hora de aceitar e viver no presente. É hora de construir relacionamentos reais, mas nem por isso menos delicados e sublimes.
A couraça do "se" é um muro que impede o contato real. É o que dificulta o encontro de si no outro. É o que nos torna cada vez mais sozinhos.
Para amar e ser amado, busque viver sem o "se".
"Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
depende de quando e como você me vê passar."
"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato.Ou toca, ou não toca."
(Clarice Lispector)
Ele.
"Ele" é alguém que eu não conheço.
Alguém que se camufla por trás de um pronome pessoal.
Sou curiosa(e como sou)!
Dê-me mais que a impessoalidade desse pronome.
Dê-me mais! Dê-me mais!
Dê-me um "nós".
Sobre o blog
É aqui que eu planto o meu silêncio e vejo brotar arte.
É aqui que eu me reinvento e abro espaço para o novo chegar.
Futures amores, sejam bem-vindos!
Leia o Manifesto.
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