FUTUROS AMORES

Um blog sobre amor, arte e acaso.

10 de jul. de 2009

Por que não hoje?

Postado por Priscila |

Acordei com essa pergunta engasgada.

Eu tenho tudo no AGORA, no JÁ, NESTE MINUTO!

A palavra profética não nos fala sobre o futuro. Ela nos fala da espera. E eu não quero mais as palavras proféticas.

Vou andar distraída, sem esperar. As supresas só ocorrem quando não esperamos por ela.

As surpresas não são proféticas e são tão mais doces.

O futuro é tão óbvio que não entendo porquê advinhá-lo. Não aos búzios. Não ao tarot. Não aos astros.

Quero estar apenas atenta a vida. O resto, quero ser pura distração.

9 de jul. de 2009

Poesia para amanhecer.

Postado por Priscila |

Amanheci.
Uma luz preguiçosa no céu espreguiçava entre núvens.
O vento invadia a janela como num romper de um bocejo.

Estava manhã.
Olhei o azul desse inverno como quem esfrega os olhos para retirar o resto de sono.

Suspirei bom dia.
Desejei que esse hoje fosse melhor que o ontem.

No café, sorvi as primeiras horas desse dia que se inicia.
As migalhas de bolo sobre o prato são a memória da minha fome de existir.

Louça lavada, louça guardada.
E todos os rituais da manhã são devidamente realizados.

Sigo com o meu trabalho.
E mais uma vez desejo que o amanhã seja melhor que o hoje.

8 de jul. de 2009

Música como mobília.

Postado por Priscila |

A primeira vez que ouvi essa música, achei linda. De uma beleza tão rara que parecia encantada. Todas as vezes que tive contato com esse precioso som foi ao acaso: uma vez foi no metrô; Outra, durante uma sessão de massagem. E ainda teve uma vez que eu a ouvi como alarme do despertador do meu tio. Eu me lembro da sensação de ser acordada por essa melodia. Dei um suspiro tão profundo antes de abrir os olhos, que eu mesma me assustei. Fiquei extasiada.

Essa música sem nome, tornou-se uma das minhas favoritas.

Não faz muito tempo visitei o site do artista Gustav Klimt, e fui surpreendida por uma melodia muito parecida na abertura. Não era a mesma música, mas sabia que só poderia ter sido composta pela mesma mão. Eu estava certa! Ambas as composições eram de Erik Satie (França, 1866-1925). A música que tocava no site chamava-se Gymnopedie n°3 e o nome da minha música favorita é Gymnopedie n°1!

Fiquei tão feliz com essa descoberta como uma criança que acha um pequeno tesouro!

Erik Satie foi amigo de Debussy e Picasso, e gostava de assuntos esotéricos. Segundo a Wikipédia, Satie foi o precursor da música ambiente (musique d'ameublement), cuja meta é preenche o ambiente sem neutralizar os sons presentes no espaço.

Satie foi muito desprezado pelos críticos musicais de sua época. Eles alegavam que suas peças eram compostas com harmonias estranhas, pouco complexas e repetitivas. Técnicamente falando a crítica procede, mas a beleza de sua obra é inquestionável. É o triunfo da simplicidade.

Mais do que compor "música mobília", Satie compõe "músicas para alma".

5 de jul. de 2009

A mão invisível.

Postado por Priscila |

Como no texto de Clarice Lispector, eu tinha uma mão invisível que segurava a minha. Essa mão tornou-se uma companhia tão sublime que me fazia sentir reconfortada por ser sozinha. E quando essa mão invisível desapareceu em núvem, senti falta dela. Uma saudade monstruosa. E como um monstro, essa saudade me devorava. Me devorava com os seus dentes finos e agudos de silêncio. O monstro me devorava e eu continuava viva.

Essa mão invisível, que eu imaginava atrelada a minha, era uma mão atenta. Uma mão atenta e sem corpo. Uma mão atenta, mas decepada do livre arbítrio. A mão era o que eu queria que ela fosse. E quando eu menos esperava, descobri que essa mão era a solidão materializada. Comecei a ter mais medo dessa mão do que de fantasma.

Tornei-me a covarde mais corajosa para enfretar a mão invisível. E antes do fim dessa batalha, já havia um morto. Um morto porque nunca foi vivo. A mão tombava em silêncio. O silêncio de núvem que me transpassava. A mão estava morta e não morria. E eu estava viva e não vivia.

Passei a viver, e a mão deixou-se morrer. Morta e em silêncio. E eu viva e em paz.

Que toda solidão seja um auto-conhecimento e não um abandono de si.