Como no texto de Clarice Lispector, eu tinha uma mão invisível que segurava a minha. Essa mão tornou-se uma companhia tão sublime que me fazia sentir reconfortada por ser sozinha. E quando essa mão invisível desapareceu em núvem, senti falta dela. Uma saudade monstruosa. E como um monstro, essa saudade me devorava. Me devorava com os seus dentes finos e agudos de silêncio. O monstro me devorava e eu continuava viva.
Essa mão invisível, que eu imaginava atrelada a minha, era uma mão atenta. Uma mão atenta e sem corpo. Uma mão atenta, mas decepada do livre arbítrio. A mão era o que eu queria que ela fosse. E quando eu menos esperava, descobri que essa mão era a solidão materializada. Comecei a ter mais medo dessa mão do que de fantasma.
Tornei-me a covarde mais corajosa para enfretar a mão invisível. E antes do fim dessa batalha, já havia um morto. Um morto porque nunca foi vivo. A mão tombava em silêncio. O silêncio de núvem que me transpassava. A mão estava morta e não morria. E eu estava viva e não vivia.
Passei a viver, e a mão deixou-se morrer. Morta e em silêncio. E eu viva e em paz.
Que toda solidão seja um auto-conhecimento e não um abandono de si.
Estou lendo "A paixão segundo G. H." da Clarice Lispector.
Gostaria de compartilhar a minha leitura com vocês, então fiz esse vídeo.
Não queria a perfeição, mas o sentimento em estado bruto. O calor da hora. Li a primeira vez e gravei a segunda. Sem ensaio.
Divirtam-se e perdoem os pequenos tropeços! Estava muito emocionada.
Fragmentos de um discurso amoroso (#4)
Dá-me a tua mão
(Clarice Lispector)
Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
Fragmentos de um discurso amoroso (#3)
RECONHECIMENTO DO AMOR
(Carlos Drummond de Andrade)
Amiga, como são desnorteantes
Os caminhos da amizade.
Apareceste para ser o ombro suave
Onde se reclina a inquietação do forte
(Ou que forte se pensa ingenuamente).
Trazias nos olhos pensativos
A bruma da renúncia:
Não queiras a vida plena,
Tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida,
Não pedias nada,
Não reclamavas teu quinhão de luz.
E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda.
Descansei em ti meu feixe de desencontros
E de encontros funestos.
Queria talvez - sem o perceber, juro -
Sadicamente massacrar-se
Sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam
Desde a hora do nascimento,
Senão desde o instante da concepção em certo mês perdido
na História,
Ou mais longe, desde aquele momento intemporal
Em que os seres são apenas hipóteses não formuladas
No caos universal
Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
Sua espada coruscante, seu formidável
Poder de penetrar o sangue e nele imprimir
Uma orquídea de fogo e lágrimas.
Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu
Em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria.
Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso.
Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor
Que trazias para mim e que teus dedos confirmavam
Ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro,
O Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,
Quando - por esperteza do amor - senti que éramos um só.
Amiga, amada, amada amiga, assim o amor
Dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo
Com o olhar pervagante e larga ciência das coisas.
Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos,
E a pura essência em que nos transmutamos dispensa
Alegorias, circunstâncias, referências temporais,
Imaginações oníricas,
O vôo do Pássaro Azul, a aurora boreal,
As chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos,
Todas as imposturas da razão e da experiência,
Para existir em si e por si,
À revelia de corpos amantes,
Pois já nem somos nós, somos o número perfeito: UM.
Levou tempo, eu sei, para que o Eu renunciasse
à vacuidade de persistir, fixo e solar,
E se confessasse jubilosamente vencido,
Até respirar o júbilo maior da integração.
Agora, amada minha para sempre,
Nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar
A melodia, a paisagem, a transparência da vida,
Perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.
_______________________
Poema de Carlos Drummond de Andrade extraído da obra "Amar se aprende amando".
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É aqui que eu planto o meu silêncio e vejo brotar arte.
É aqui que eu me reinvento e abro espaço para o novo chegar.
Futures amores, sejam bem-vindos!
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