FUTUROS AMORES

Um blog sobre amor, arte e acaso.

15 de jun. de 2009

A sorte

Postado por Priscila |

Hoje consultei o tarot. Precisava de um bom conselho. Acho que a resposta foi providencial.

Tarot Zen - Carta n°5. - "Nada"


Buda escolheu uma das palavras que realmente trazem em si um grande potencial -- shunyata. A palavra inglesa, o equivalente inglês ´nothingness´ [nada], não é uma palavra tão bela. Por esse motivo é que eu gostaria de transformá-la em ´no-thingness´- porque o "nada" de fato não é exatamente um vazio: ali se encontra potencialmente o "tudo". Nele, vibram todas as possibilidades. Trata-se de potencial, potencial absoluto. Ainda não está manifesto, mas tudo está contido ali.

No princípio é natureza, no final é natureza. Então, por que criar tanta confusão no meio do caminho...? Por que ficar tão preocupado, tão ansioso, com tantas ambições, no meio do caminho -- por que criar tamanho desespero? Toda a jornada é do nada ao nada.

Osho Take it Easy, Volume 1 Chapter 5



Comentário:

Encontrar-se "no vazio" pode ser desorientador e até assustador. Nada em que se apoiar, nenhum sentido de direção, nem mesmo um indício a respeito de quais opções e possibilidades poderiam estar à frente. Era, porém, exatamente esse estado de potencialidade pura que existia antes que o universo fosse criado.

Tudo o que você pode fazer agora é relaxar no seio dessa não-materialidade... mergulhar nesse silêncio entre as palavras... observar esse vazio entre a expiração e a inspiração, e guardar o tesouro de cada momento vazio da experiência. Alguma coisa sagrada está para nascer.

Tarot Zen - Carta n° 29 - Confiança

Não desperdice a sua vida com aquilo que lhe vai ser tirado. Confie na vida. Se você confiar, só então, será capaz de abandonar o seu conhecimento, só então, poderá colocar de lado a sua mente. E com a confiança, algo imenso tem início. Esta vida deixa de ser uma vida comum, torna-se plena de Deus, transbordante.

Quando o coração se torna inocente e as paredes desaparecem, você fica ligado ao infinito. E você não terá sido enganado; não existirá nada que lhe possa ser tomado. Aquilo que pode ser tirado de você, não vale a pena guardar; e aquilo que não há como ser tirado de você, por que haveria alguém de ter medo que lhe seja tirado? -- não pode ser levado, não há possibilidade. Você não pode perder o seu tesouro verdadeiro.

Osho The Sun Rises in the Evening Chapter 9

Comentário:

Este é o momento de ser aquele "ioiô humano", capaz de se atirar no vazio sem a proteção do cabo elástico amarrado aos pés! E é esta postura de confiança absoluta, sem reservas nem redes de segurança escondidas, que o Cavaleiro da Água exige de nós.


Uma grande euforia nos invade quando conseguimos dar o salto para o desconhecido, ainda que essa simples idéia nos apavore. E quando adquirimos confiança ao nível do salto quântico, deixamos de fazer quaisquer planos elaborados, ou preparativos. Não dizemos: "Muito bem, confio que sei o que fazer agora: vou pôr em dia meus negócios, preparar minhas malas e levá-las comigo". Não; nós simplesmente saltamos, sem pensar muito no que virá depois. O importante é o salto, e o arrepio que ele nos provoca à medida que caímos em queda livre pelo vazio do céu.


A carta nos dá, entretanto, uma "deixa" a respeito do que nos espera no outro extremo -- um delicado, convidativo, um delicioso rosado... pétalas de rosa, um suculento... "Venha!"


Tarot Zen - Carta n° 53 - O Sonho

Uma coisa tem sido dita repetidas vezes no decorrer dos tempos. Todas as pessoas religiosas têm afirmado que: "Sozinhos nós chegamos a este mundo, e sozinhos partiremos". Toda idéia que envolve estar junto é ilusória. A própria idéia de companheirismo aparece porque estamos sós, e o isolamento fere. Queremos neutralizar nosso isolamento com relacionamentos...
Por isso é que nos deixamos envolver tanto com o amor. Tente entender a questão.

Normalmente você pensa que se apaixonou por uma mulher, ou por um homem, porque ela é bela, ou ele é belo. Essa não é a verdade. A verdade é exatamente o contrário: Você "caiu no amor" porque não consegue ficar sozinho. Você estava mesmo pronto para "cair". De uma maneira ou de outra você iria fugir de si mesmo.

E existem pessoas que não se apaixonam por mulheres ou homens -- então se apaixonam pelo dinheiro. Elas passam a acumular dinheiro, ou embarcam na aventura do poder -- elas se tornam políticos. Isso também é fugir do próprio isolamento. Se você observar o Homem, se observar com profundidade a si mesmo, ficará surpreso: todas as suas atividades podem ser reduzidas a uma única origem. Essa origem é o medo que você tem de estar só. Tudo o mais são apenas desculpas. O motivo verdadeiro é que você se sente muito só.

Osho Take it Easy, Volume 2 Chapter 1

Comentário:

Em alguma tardezinha encantada, você irá encontrar a sua alma gêmea, a pessoa perfeita que corresponderá a todas as suas necessidades, e será a concretização de todos os seus sonhos. Certo? Errado! Essa fantasia que os cantores e os poetas gostam tanto de perpetuar tem suas raízes em memórias do útero, onde estávamos tão seguros e "unificados" com nossas mães; não é de admirar que sejamos obcecados por retornar a essa condição durante toda a nossa vida. Mas, falando numa linguagem crua, é um sonho infantil. E é surpreendente que nos apeguemos a ele com tanta teimosia, diante da realidade.


Ninguém seja o seu atual companheiro ou alguém com quem você sonha no futuro, tem a obrigação de trazer-lhe à felicidade numa bandeja -- nem poderia, ainda que quisesse. O amor verdadeiro não advém de tentativas de satisfazer nossas necessidades por meio da dependência com relação à outra pessoa, mas por meio do desenvolvimento da nossa riqueza interior, e do nosso amadurecimento. Com isso, passamos a ter tanto amor para dar, que amantes serão espontaneamente atraídos por nós.


14 de jun. de 2009

Fragmentos de um discurso para o "Adeus"

Postado por Priscila |

D.,

Parece tão fácil à primeira vista seguir conselhos de alguém. Mas existe um grande, o maior obstáculo para eu ir adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho. E com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma. Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece.

Só o acaso pode nos parecer uma mensagem. Aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e se repete cotidianamente é coisa muda apenas. Somente o acaso tem voz. Tenta-se ler no acaso como as ciganas lêem no fundo de uma xícara os desenhos deixados pela borra de café.

As metáforas são uma coisa perigosa. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora.


Foi por "acaso" que se apaixonara por ele. A vida não repousa no "Es muss sein!", mas antes em "Es könnte auch anders sein": isso poderia muito bem ter acontecido de outra maneira...

Às vezes me parece que estou perdendo tempo, às vezes me parece que pelo contrário, não há modo mais perfeito, embora inquieto, de usar o tempo: o de te esperar.


Não vou querer fazer terapia, não vou descontar minha frustração em você, não vou tomar remédio para dormir. Não quero mais o presente. Não quero a mentira. E nem o sonho quero mais. Alguém espera por mim. Daqui, não alcanço esse sonho. Eu me vou.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como "as outras",
Ridículas.

Me reconheça ímpar. Impaciente. Só. Muito antes de louca.

P.
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Carta construída com fragmentos das obras "A insustentável leveza do ser" de Milan Kundera, "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres" de Clarice Lispector, "Tudo que eu queria te dizer" de Martha Medeiros e o poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).

13 de jun. de 2009

Digerindo o "Dia dos Namorados".

Postado por Priscila |

Depois do "Dia dos Namorados", vem o "Dia de Santo Antônio". E prá quem está solteiro, cabe apenas uma tentativa de sair bem dessa história toda.

Proponho, então, uma sessão de desenhos sobre a temática. Pelo menos a gente se diverte! =)

1- "How To Break Up With Your Girlfriend in 64 easy steps" - Tales of Mere Existence (Lev Yilmaz).

www.youtube.com/v/Hfl9e53LX_U





10 de jun. de 2009

Todas as cartas de amor...

Postado por Priscila |

Ontem, depois de pensar nos muitos e-mails que nós compartilhamos, nas cartas que nós escrevemos, nos postais que nós trocamos, o "acaso" me colocou este livro nas mãos. Consegui o fragmento da primeira carta. Te enviei. Você respondeu. Fiquei feliz. Você também parecia feliz.

E eu fico pensando se um dia essas nossas cartas serão livros. Se um dia elas serão mais que cartas. Tomara. Eu desejo isso. E espero que você também.

Dedico este post ao meu intrépido destinatário.

Segue o fragmento do livro e a sua referência! Divirtam-se!

"Raul,

sei bem do que você vai me chamar. Louca. Não será a primeira vez, mas agora talvez tenha um motivo, basta que leia esta carta até o fim. De louca você me acusará e tem a prova nas mãos.

Tive um sonho esta noite. Eu caminhava entre uma multidão e, na direção contrária, vinha um homem. Ele trazia uma mochila nas costas. Nossos olhos se cruzaram e eu tive certeza de que era ele. Que seria meu. Que era o amor que eu aguardava. Tinha um rosto familiar. Era o irmão de uma amiga de adolescência. Eu vi o irmão dessa garota apenas uma vez na vida, aos 15 anos. Não entendo, nunca troquei palavra com esse cara, nunca mais o vi depois dos 15, nem de perto, nem de longe. Não sei se hoje é casado, gay, bispo, em que país vive, e se vive ainda. Lembro apenas do seu nome. João. Eu e João trocamos um olhar penetrante no meu sonho, então ele passou por mim, e eu por ele, cada um no seu caminho. Alguns passos adiante, virei pra trás, olhei, ele estava olhando também, mas nenhum de nós parou. Até que percebi que estava com a mochila dele em minhas mãos, e minha bolsa havia sumido. Não havia explicação. Voltei correndo para procurar minha bolsa, e para procurá-lo. O ambiente parecia uma estação ferroviária. Cruzamos outra vez. Ele estava com a mochila dele. E minha bolsa estava comigo. Sonhos são desse jeito.

Dali em diante, não nos desgrudamos mais. Ele me pegou pela mão, me levou para algum lugar. As mãos dele nas minhas. Como se já fôssemos namorados. Antes de qualquer palavra. Então eu disse a ele - e foi a única coisa dita: se isso acabar agora, vai ter valido a minha vida. E o beijei.

Dormindo, senti aquele beijo como se João estivesse inteiro dentro da minha boca. Foi um beijo cheio. Longo. Delicioso. Um beijo enorme. Um beijo doce. Quente. Sexy. Meu corpo reagiu, fiquei excitada, nesse instante houve uma fusão entre sonho e realidade, enquanto o beijava eu pensava: não acorde, não acorde. Mas esse breve instante de consciência me despertou. E eu já não era a mesma.

Raul, foi só um sonho. Mas com uma carga de certeza que me perturba e dói. Eu sou aquela mulher do sonho, atrás de um amor, encontrando um amor, e o perdendo pela rotina matinal: acordar, tomar banho, levar as crianças ao colégio, trabalhar, almoçar, morrer.

Eu vou atrás dele, Raul. Não vou querer fazer terapia, não vou me afogar em uísque, não vou descontar minha frustração em você, não vou compra roupa nova, não vou cortar o cabelo, não vou tomar remédio para dormir, não vou esperar as crianças crescerem. Eu vou atrás dele. Desse homem que nunca conheci de fato, mas que existe de outra forma, que existe com outro rosto e com outro nome, que existe no meu futuro, se o futuro eu permitir que aconteça. Não quero mais o presente, não quero mais a paralisia, o pra sempre. Alguém espera por mim. Alguém não vê a hora de eu chegar. Eu não vejo essa hora. Daqui, não alcanço esse sonho. Eu me vou.

Não é o momento de falar sobre coisas práticas. Se estivéssemos conversando pessoalmente, além de me agredir, você me faria pergunta irritantes: e nossos filhos, nosso dinheiro, nosso apartamento, como explicaremos, como faremos, e nossa reputação, e nossa viagem de final de ano? Esqueça tudo isso. Me enxergue. Eu preciso daquele beijo antes que não seja mais capaz.

Não quero amantes. Não quero a mentira. E nem o sonho quero mais. Eu necessito daquele beijo para seguir acordando todas as manhãs. Senão, vou desejar dormir cedo todos os dias, fugindo para poder extrair do imaginário uma vida que não tenho. Aquele beijo me despertou para o meu vazio. Quero um amor dentro da minha boca.

Raul, antes de chamar um advogado, sente no sofá com esta carta nas mãos e chore por mim, me sinta, faça um esforço para ir além das questões burocráticas de um casamento. Me reconheça ímpar. Impaciente. Só. Muito antes de louca. Muito antes e muito mais. Louca é pouco.

Vou passar o final de semana fora, sozinha. E, quando voltar, as perdas serão calculadas, as malas serão fechadas, as crianças serão preservadas e as vidas seguidas. E eu, então, irei atrás do meu instante.

Renata"
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Texto extraído de:
MEDEIROS, Martha - TUDO QUE EU QUERIA TE DIZER, Rio de Janeiro, Ed. Objetiva.