FUTUROS AMORES

Um blog sobre amor, arte e acaso.

5 de mai. de 2009

"Desconheço o conhecido"

Postado por Priscila |

Pensando na temática da "lembrança e esquecimento" fiquei impressionada com a sensação que tive hoje ao entrar na Biblioteca da Faculdade.

Desde que me formei, não havia voltado lá. Foi incrível perceber como ainda era o mesmo espaço e não era! Eu tinha esquecido como era procurar a referência no arquivo, qual era o número que deveria anotar, e como eram organizadas as prateleiras! Eu fiquei um tempo olhando aquele espaço tão familiar (parecia que tinha estado ali ontem!), mas que era novo! Não quis pedir ajuda. Fiquei um tempo me divertindo com essa "deslembrança".

Aos poucos, as lembranças foram focando, focando, até tornarem-se imagens claras de como tudo funcionava! Foi como andar de bicicleta!

Depois, algo mais divertido: o momento do empréstimo do livro! A bibliotecária perguntou se eu tinha ficha e eu completamente cética disse: "Já não deve existir mais! Já tenho 3 anos de formada". Ela procurou, procurou, e eu estava lá! Na memória virtual rapidamente atualizada e transformada em lembrança! A bibliotecária só teve o trabalho de confirmar os dados. Mas aí veio o momento de tensão: ela pediu para eu digitar a minha senha! Eu ri. Pensei comigo: "Não vou lembrar nem a pau"! Pedi uma ajuda a ela perguntando quantos digitos teria e ela disse de 4 a 10! Pronto, danou-se! Eu respirei fundo, olhei o teclado e me veio a mente a lembrança dos números... Eu estava certa! Deu tudo OK, peguei o livro e fui embora.

Foi uma sensação incrível de "desconheço o conhecido"!

1 de mai. de 2009

Twittando...

Postado por Priscila |

Depois de semanas ouvindo falar do tal Twitter, resolvi experimentar. Achei interessante a lógica desse nova mídia. Tá curioso? Vai uma prévia!

O Twitter é um site de relacionamentos, mas diferente do orkut e do facebook. Na verdade ele está mais para um "nano blog" ou "micro diário", como queiram! A idéia é simples: responder em 140 toques a pergunta "What are you doing?" (o que você está fazendo?) Na verdade a pergunta pode ir um pouco além. Pode ser: "o que vc está pensando?", "o que vc está sentindo?", ou apenas "Como vc está?".

O site tem uma página principal parecida com o scrap do orkut, onde são escritas as mensagens. Assim como nos outros sites de relacionamentos, você também pode adicionar os seus amigos. Toda a postagem que você fizer, eles vão ler e vice-versa, e podem inclusive responder.

O bom desse Twitter, é que ele estimula a quem escreve produzir belos versos sobre seu estado interior. Já vi aforismos incríveis! Além disso, o design do Twitter é favorável: lembra um "papel de carta". Outra coisa que eu achei bem legal, é que não há o recurso da imagem (exceto da foto do perfil e do design da página que você pode escolher). Só há escrita.

Experimentem! Ou pelo menos façam uma visitinha =) Fica a dica!

http://twitter.com/

Dica de filme: "Encontros e desencontros"

Postado por Priscila |

Nesta terça, vi um DVD super! Chama-se "Encontros e desencontros" da Sofia Coppola, com a Scarlette Johansson e o Bill Murray. O roteiro é bem cuidado, as imagens enigmaticas, e a trilha sonora um primor. O nome original do filme é "Lost in Translation" (ou seja, Perdidos na tradução), que achei muito mais poético!

Bill Murray faz o papel de um ator (Bob Harris) de meia-idade que se encontra em Tóquio para realizar sessões fotográficas publicitárias e sente-se melancólico com toda rotina sem sentido que tornou-se sua vida, especialmente o seu casamento. No hotel, conhece Charlotte (Scarlette Johansson), a jovem esposa de um fotografo que se encontra sozinha em Tóquio nas horas em que ele trabalha. No meio de uma cultura tão diferente, onde a comunicação é quase impossível (seja com os japoneses, seja com os respectivos cônjuges) eles começam a compartilhar as angústias, as insônias e o desejo por uma vida menos mediocre.

Fiquei pensando nas pessoas que eu quero bem, e que moram em outros países.Como deve ser difícil se comunicar!

O grande ganho do filme é mostrar que não é preciso estar num outro país para se sentir "perdido na tradução". Muitas vezes, as pessoas que estão do nosso lado parecem falar um idioma completamente diferente do nosso...

Tem coisas que vão além da língua...

Fica a sugestão de filme!

21 de abr. de 2009

A prece de Lóri

Postado por Priscila |

"— Estive lendo um dia um filósofo, sabe. Uma vez segui um conselho dele e deu certo. Era mais ou menos isto: é só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos é que começamos a saber. Então pensei em você que não fala uma palavra de filosofia comigo e quando estamos juntos, pois é, quando estamos juntos você até parece um sábio que não quer mais ser sábio e até, sabe, até se dá ao luxo de disfarçadamente se angustiar como qualquer um de nós.

Ulisses estava atento, imóvel. Lóri continuou:

— Parece tão fácil à primeira vista seguir conselhos de alguém. Seus conselhos, por exemplo. Já agora ela falava sério:

— Seus conselhos. Mas existe um grande, o maior obstáculo para eu ir adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho. E com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma.Ela jamais falara tantas palavras em seguida. Por isso queria evitar o principal. De repente porém notou que se não dissesse o final, nada teria dito, e falou:

— Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece.Sim, tudo se esclarecia e ela surgia de dentro de si mesma quase com esplendor.

— Sim, disse Ulisses. Mas você se engana. Eu não dou conselhos a você. Eu simplesmente — eu — eu acho que o que eu faço mesmo é esperar. Esperar talvez que você mesma se aconselhe, não sei, Lóri, juro que não sei, às vezes me parece que estou perdendo tempo, às vezes me parece que pelo contrário, não há modo mais perfeito, embora inquieto, de usar o tempo: o de te esperar. Você sabe rezar?

— O quê? perguntou ela em sobressalto.

— Não rezar o Padre-Nosso, mas pedir a si mesma, pedir o máximo a si mesma?

— Não sei se sei, nunca tentei. Isto é um conselho? perguntou com ironia.

Ele se perturbou:

— Acho que foi.

Esqueça o que eu disse.

Mas ela não esqueceu.Lavava o rosto devagar, penteava-se devagar, já de camisola para dormir. Adiava, adiava. Escovou mais uma vez os dentes. Sua testa estava franzida, sua alma trêmula. Ela sabia que ia tentar rezar e assustava-se. Como se o que fosse pedir a si mesma e ao Deus precisasse de muito cuidado: porque o que pedisse, nisso seria atendida. Foi à geladeira, bebeu um copo de água: agia como se tivesse sido hipnotizada por Ulisses. E ainda um ínfimo movimento de revolta contra o hipnotismo a que parecia ter sido sujeita fazia-a adiar o que viesse.

Pedir? Como é que se pede? E o que se pede?
Pede-se vida?
Pede-se vida.
Mas já não se está tendo vida?
Existe uma mais real. O que é real?

E ela não sabia como responder. Às cegas teria que pedir. Mas ela queria que, se fosse às cegas, pelo menos entendesse o que pedisse. Ela sabia que não devia pedir o impossível: a resposta não se pede. A grande resposta não nos era dada. É perigoso mexer com a grande resposta. Ela preferia pedir humilde, e não à sua altura que era enorme: Lóri sentia que era um enorme ser humano. E que devia tomar cuidado. Ou não devia? A vida inteira tomara cuidado em não ser grande dentro de si para não ter dor.

Não, não devia pedir mais vida. Por enquanto era perigoso. Ajoelhou-se trêmula junto da cama pois era assim que se rezava e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor: alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém." *

(*) Extraído da obra "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres" de Clarice Lispector.