"— Estive lendo um dia um filósofo, sabe. Uma vez segui um conselho dele e deu certo. Era mais ou menos isto: é só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos é que começamos a saber. Então pensei em você que não fala uma palavra de filosofia comigo e quando estamos juntos, pois é, quando estamos juntos você até parece um sábio que não quer mais ser sábio e até, sabe, até se dá ao luxo de disfarçadamente se angustiar como qualquer um de nós.
Ulisses estava atento, imóvel. Lóri continuou:
— Parece tão fácil à primeira vista seguir conselhos de alguém. Seus conselhos, por exemplo. Já agora ela falava sério:
— Seus conselhos. Mas existe um grande, o maior obstáculo para eu ir adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho. E com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma.Ela jamais falara tantas palavras em seguida. Por isso queria evitar o principal. De repente porém notou que se não dissesse o final, nada teria dito, e falou:
— Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece.Sim, tudo se esclarecia e ela surgia de dentro de si mesma quase com esplendor.
— Sim, disse Ulisses. Mas você se engana. Eu não dou conselhos a você. Eu simplesmente — eu — eu acho que o que eu faço mesmo é esperar. Esperar talvez que você mesma se aconselhe, não sei, Lóri, juro que não sei, às vezes me parece que estou perdendo tempo, às vezes me parece que pelo contrário, não há modo mais perfeito, embora inquieto, de usar o tempo: o de te esperar. Você sabe rezar?
— O quê? perguntou ela em sobressalto.
— Não rezar o Padre-Nosso, mas pedir a si mesma, pedir o máximo a si mesma?
— Não sei se sei, nunca tentei. Isto é um conselho? perguntou com ironia.
Ele se perturbou:
— Acho que foi.
Esqueça o que eu disse.
Mas ela não esqueceu.Lavava o rosto devagar, penteava-se devagar, já de camisola para dormir. Adiava, adiava. Escovou mais uma vez os dentes. Sua testa estava franzida, sua alma trêmula. Ela sabia que ia tentar rezar e assustava-se. Como se o que fosse pedir a si mesma e ao Deus precisasse de muito cuidado: porque o que pedisse, nisso seria atendida. Foi à geladeira, bebeu um copo de água: agia como se tivesse sido hipnotizada por Ulisses. E ainda um ínfimo movimento de revolta contra o hipnotismo a que parecia ter sido sujeita fazia-a adiar o que viesse.
Pedir? Como é que se pede? E o que se pede?
Pede-se vida?
Pede-se vida.
Mas já não se está tendo vida?
Existe uma mais real. O que é real?
E ela não sabia como responder. Às cegas teria que pedir. Mas ela queria que, se fosse às cegas, pelo menos entendesse o que pedisse. Ela sabia que não devia pedir o impossível: a resposta não se pede. A grande resposta não nos era dada. É perigoso mexer com a grande resposta. Ela preferia pedir humilde, e não à sua altura que era enorme: Lóri sentia que era um enorme ser humano. E que devia tomar cuidado. Ou não devia? A vida inteira tomara cuidado em não ser grande dentro de si para não ter dor.
Não, não devia pedir mais vida. Por enquanto era perigoso. Ajoelhou-se trêmula junto da cama pois era assim que se rezava e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor: alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém." *
(*) Extraído da obra "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres" de Clarice Lispector.
A prece de Lóri
E mais uma vez você parte. E parte para onde? Não sei. O local de chegada é o que menos importa. O importante é o caminho que se fará até lá.
Agora você irá partir, mas é completamente diferente da primeira vez.
Lembro dos meus olhos marejados.
Lembro da prece silenciosa pedindo para não te perder de vista.
Lembro de você afirmando que nos reencontraríamos mais uma vez.
Lembro de você sorrindo e indo, indo...
Tudo, absolutamente tudo, é diferente do primeiro adeus. Meu coração está tranqüilo. A prece não é mais um desejo. É o querer bem de fato. Assim, estamos em continua prece um pelo outro.
Agora, eu não sinto o adeus. Eu sinto algo que se renova.
Livro para os pais, móveis para a amada, dvd para a amiga. E assim, você espalha sementes para ter colheita quando voltar.
Outono na Glória, primavera em Paris. E quando for verão, lembre-se que o inverno terá novas cores: as cores de Praga.
Inté!
Quantas vezes assisti ao filme "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças"? Não sei. Perdi a conta! Apesar de já conhecer as falas de cor, a cada nova exibição percebo algum detalhe que até então passou desapercebido.
Uma das últimas coisas que descobri foi que "Clementine" é, de fato, uma espécie de "tangerina"(1).
Além disso, fiquei dias pensando: se Clementine e Joel realmente apagaram a memória que um tinha do outro, como poderiam ter se reencontrado em Montauk? Como não foi possível apagar as ligações afetivas?
Com a ajuda do filósofo Henri Bergson e o seu Livro "Matéria e Memória" (2) , cheguei a algumas respostas:
1 - Temos a tendência a acreditar que nossas ligações afetivas são construções da memória. Ou seja, gostamos de alguém pela "história" que contruímos com ela.
2 - Para Bergson, uma memória jamais é deletada. Na verdade,para ele, quando há a perda de memória, o que se perdeu é a capacidade do cérebro de acessá-la. Mas suponhamos que seja possível realmente apagar a memória. Por que Joel e Clementine se reencontraram em Montauk? Porque mesmo apagando uma lembrança, a simples experiência de ter uma pessoa especial em nossas vidas nos transforma. E essa transformação marca a presença dela em nós para sempre. Nossas escolhas, nossos hábitos, nossos gostos receberam a dose das cores trazidas por esses "encontros".
Termino essa breve reflexão com um trecho do livro do Bergson:
"Nosso caráter, sempre presente em todas as nossas decisões, é exatamente a síntese atual de todos os nossos estados passados".
Portanto, mesmo sem a memória um do outro, Joel e Clementine, estariam presentes um na vida do outro, através do caráter.
__________________________
(1) Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Clementines
(2) BERGSON, Henri, Matéria e Memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito - 3ª edição, São Paulo, Martins Fontes, 2006.
Série "Reza a lenda": 1- Andar de bicicleta.
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