Em tempos de crises e recessões, existe uma economia sentimental que segue uma tendência curiosa. Vejamos alguns exemplos:
[Caso 1]
—Nossa, como é bom te ver! Passa o número do seu telefone para a gente se falar?
Nesse instante o tempo congela, a pessoa pensa duas vezes antes de passar o telefone, mas ao mesmo tempo, na solidão do seu quarto reclama a falta de ligações.
[Caso 2]
“Caro amigo, tenho saudades de você. Enviei alguns e-mails, mas você nunca mais me respondeu. Agora que te achei, poderia me mandar novamente seu endereço eletrônico?”
A pessoa em questão encaminha o e-mail “plano B”. Ou seja, aquele que dificilmente acessa, ou que deixa de “stand by” para manter a privacidade...
Ah, a privacidade! Que palavra curiosa! Refletindo a partir de alguns exemplos entendi que, hoje, “privacidade” é aquele espaço em que ninguém, além do próprio, deve entrar, pois é um local para exercício do egoísmo individualista. Também reconheci outras ideias ligadas ao termo, tais como a “meia verdade”, ou a famosa omissão, que quando questionadas são rapidamente rebatidas com o termo “invasão de privacidade”.
Talvez eu seja ingênua, pois entendia privacidade como aquele local de silêncio onde nos recolhemos para meditar, e não para nos esconder.
Eu sei, eu sei... Estamos na sociedade do espetáculo e nunca houve tantas “exibições” como hoje... Mas não estou falando disso... O que eu me refiro é aquele espaço de troca e não da relação espectador-espetáculo.
Enquanto isso, eu reconheço rostos, mas não sei quem são...
Um texto delicado que vale a pena ler!
***
Artur da Távola - 01 de julho de 2006
Chego no boteco, a macharia está lá. Supondo vir a ser compreendido e admirado, todo pimpão, apresso-me em proclamar:
1- Sabem qual foi o lance mais bonito da Copa?
2- Qual? Qual? Já sei, aquele gol do Argentino de fora da área...
1- Nada disso: tem sido o olhar de ternura do William Bonner para a mulher nas despedidas do Jornal Nacional.
1- Sabem qual foi o lance mais bonito da Copa?
2- Qual? Qual? Já sei, aquele gol do Argentino de fora da área...
1- Nada disso: tem sido o olhar de ternura do William Bonner para a mulher nas despedidas do Jornal Nacional.
Levo logo uma vaia. Ninguém me compreendeu. Até de piegas me chamaram, em gozação. Calo-me, então, a ponto de os demais depois até repararem. Invento, então, um compromisso e saio antes do fim do papo. A pensar:
Já sei o que os incomodou: a palavra ternura. O mundo anda precisado de ternura e as pessoas têm medo de demonstrar sentimentos. Mas isso é uma bobagem. Ternura ninguém manifesta sem sentir. É necessário que venha de dentro. É o mais leal dos sentimentos. Ternura não se manifesta: sente-se.
Um marido distante quilômetros e um tempão longe da mulher que ama, vê-la na madrugada e no frio a trabalhar com afinco, mesmo sendo discreto e polido como o Bonner, sabe que ela é mãe de seus trigêmeos e dia desses até se preocupou em dizer que lá estava frio como a significar: “Vê lá se vai pegar uma gripe. Amanhã venha mais agasalhada.” D’outra feita, havia uma festa dos brasileiros entrando pela madrugada no Hotel e ela encerrava a sua reportagem do lado de fora. Discreto como sempre, ele quase perguntou: “Você vai à festa? (Ou vai dormir, deve ter pensado e calou?) “Nada de festa, ouviu Madame?” Também esta frase não pronunciou. Mas sentiu o ciuminho e o transmitiu subjetivamente.
Posso pensar que nós cronistas vemos coisas que os demais não percebem e até desdenham e por vezes eu sei que vivemos nos demais as emoções que estão a pulular dentro de nós. Pode ser. Há tanta artificialidade na televisão que aquilo poderia ser combinado. E concluo: poderia ser, porém não é! O rapaz não é ator. Quando a casa deles foi invadida por bandidos, todos ameaçados, ele foi valente defensor da família. Arriscou a vida. Do lado de lá (Alemanha) a Fátima é ainda mais encabulada, e parece uma menina a disfarçar ao receber uma cantada. Mesmo do marido.
Ora, conclui o velho cronista: receber diante de 60 ou 70 milhões de brasileiros uma declaração de amor através do olhar terno e saudoso do marido é a glória para qualquer uma. Sinal de merecimento. Fico com a minha conclusão: os meus amigos de boteco deram-me um fora errado. Piegas uma ova: poeta.
Salve o olhar de ternura de um homem por sua mulher, a saudade verdadeira e o cuidado com ela. É sinal de esperança, de amor e de vida.
23 de fev de 2012
História de um Pão
Postado por
Priscila
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Fragmentos de um discurso amoroso
Quando Barsabás, o tirano, demandou o reino da morte, buscou debalde reintegrar-se no grande palácio que lhe servira de residênca.
A viúva, alegando infinita mágoa, desfizera-se da moradia, vendendo-lhe os adornos.
Viu ele, então, baixelas e candelabros, telas e jarrões, tapetes e perfumes, jóias e relíquias, sob o martelo do leiloeiro, enquanto os filhos querelavam no tribunal, disputando a melhor parte da herança.
Ninguém lhe lembrava o nome, desde que não fosse para reclamar o ouro e a prata que doara a mordomos distintos. E porque na memória de semelhantes amigos ele não passava, agora, de sombra, tentou o interesse afetivo de companheiros outros da infância...
Todavia, entre eles encontrou simplesmente a recordação dos próprios atos de malquerença e de usura.
Barsabás, entregou-se as lágrimas de tal modo, que a sombra lhe embargou, por fim, a visão, arrojando-o nas trevas.
Vagueou por muito tempo no nevoeiro, entre vozes acusadoras, até que um dia aprendeu a pedir na oração, e, como se a rogativa lhe servisse de bússola, embora caminhasse às escuras, eis que, de súbito, se lhe extingue a cegueira e ele vê, diante de seus passos, um santuário sublime, faiscante de luzes.
Milhões de estrelas e pétalas fulgurantes povoavam-no em todas as direções.
Barsabás, sem perceber, alcançara a Casa das Preces de Louvor, nas faixas inferiores do firmamento.
Não obstante deslumbrado, chorou, impulsivo, ante o Ministro espiritual que velava no pórtico.
Após ouvi-lo, generoso, o funcionário angélico falou sereno:
— Barsabás, cada fragmento luminoso que contemplas é uma prece de gratidão que subiu da Terra.
— Ai de mim — soluçou o desventurado — eu jamais fiz o bem...
— Em verdade — prosseguiu a informante —, trazes contigo, em grandes sinais, a pranto e o sangue dos doentes e das viúvas, dos velhinhos e órfãos indefesos que despojaste, nos teus dias de invigilância e de crueldade; entretanto, tens aqui, em teu crédito, uma oração de louvor...
E apontou-lhe acanhada estrela, que brilhava a feição de pequenino disco solar.
— Há trinta e dois anos - disse, ainda, o instrutor —, deste um pão a uma criança e essa criança te agradeceu, em prece ao Senhor da Vida.
Chorando de alegria e consultando velhas lembranças, Barsabás perguntou:
— Jonakim, o enjeitado?
—Sim, ele mesmo — confirmou a missionário divino. — Segue a claridade do pão que deste, um dia, por amor, e livrar-te-ás, em definitivo, do sofrimento nas trevas.
Barsabás acompanhou o tênue raio do tênue fulgor que se desprendia daquela gota estelar, mas, em vez de elevar-se as Alturas, encontrou-se numa carpintaria humilde da própria Terra.
Um homem calejado aí refletia, manobrando a enxó em pesado lenho...
Era Jonakim, aos quarenta de idade.
Como se estivessem as dois identificados no doce fio de luz, Barsabás abraçou-se a ele, qual viajante abatido, de volta ao calor do lar... (...)
Decorrido um ano, Jonakim, o carpinteiro, ostentava, sorridente, nos braços, mais um filhinho, cujos louros cabelos emolduravam belos olhos azuis.
Com a benção de um pão dado a um menino triste, por espírito de amor puro, conquistara Barsabás, nas Leis Eternas, o prêmio de renascer para redimir-se.
Espírito Irmão X
por Francisco Cândido Xavier
Da obra: O Espírito da Verdade.
por Francisco Cândido Xavier
Da obra: O Espírito da Verdade.
Flor do Ártico
Hoje li nos jornais a história de uma flor que esperou 32 mil anos para florescer. A semente ficou congelada numa antiga toca de esquilo durante todo esse tempo... Sabe lá o que é esperar 32 mil anos para germinar e florescer?
***
Todas as vezes que ouço "a história de um pão" do irmão X, eu fico reflexiva... Como um pão, dado sem boa vontade para uma pobre criança, pode salvar a alma de um homem poderoso? Eis o milagre da vida...
O verdadeiro ato de caridade liga o benfeitor ao beneficiado através dos laços do amor...
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Este blog é um esforço lúdico para (re)elaborar a experiência amorosa. O amor na música, na memória, no cinema, na literatura, ou no "acaso".
É aqui que eu planto o meu silêncio e vejo brotar arte.
É aqui que eu me reinvento e abro espaço para o novo chegar.
Futures amores, sejam bem-vindos!
Leia o Manifesto.
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