” E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça – que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca – levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário…por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência.
-- Você tem sorte!
Disse o jovem rapaz de sorriso largo e iluminado.
-- Eu teria sorte se tivesse achado um milhão ao invés de centavos.
Os dois riram.
-- Mas quantas pessoas acham moeda nas ruas? Já parou para pensar?
-- Nunca tinha pensado nisso. Eu não ando por aí olhando o chão para achar moedas... eu simplesmente ando.
-- Tudo bem. Não é pecado.
Os dois deram uma risada suave.
-- Tá esperando uma carona?
-- Sim. E espero que chegue antes que a chuva caia.
-- Você tem sorte, esqueceu?
Ela riu duvidando. E a dúvida combinou com o tempo que começava a chuviscar.
-- Acho que você estava errado.
Os dois riem.
-- É. Acho que o jeito é esperar dentro do shopping.
-- Não posso.
-- Então, acho melhor você abrir o guarda-chuva.
-- Não tenho. Esqueci em casa...
-- Eu disse que você era sortuda. Toma. Fica com o meu.
-- Minha mãe disse para eu não aceitar guarda-chuva de estranhos.
Os dois riram da brincadeira.
-- Obrigada! Tem certeza que não te fará falta?
-- Nem um pouco.
O homem começou a se distanciar, caminhando em direção a entrada do shopping. Quando a jovem moça gritou:
--Ei!
-- Diga!
-- Toma a minha moeda da sorte. Quem sabe você não tem mais o azar de perder o guarda-chuva para uma estranha?
Os dois riram, e junto da moeda seguia o número do telefone dela.
-- Bem -- pensou ela -- tomare que ele me ligue antes que a chuva caia...
A chuva não caiu, mas ainda sim, ele ligou.
Ela estava sentada no banco do metrô observando a paisagem dos trilhos. Seus olhos percorriam os cabos da via e os clarões de luz como quem olha um horizonte. Um par de sapatos masculinos atrapalhou a sua vista: era um jovem rapaz de palitó que não sabia combinar as peças, muito menos as cores -- calça de linho marrom, meia azul marinho, sapato marrom. Uma camisa e um colete xadrez que pareciam retirados de um brechó.
Ela olhou atentamente as longas pernas. Duas torres no meio de sua paisagem. Então, as torres se moveram.
-- Posso sentar?
-- Claro! -- Ela retirou a bolsa que ocupava o assento.
O rapaz sentou e riu. Riu um riso triste para dentro de si, mas desejando compartilhar.
-- Sabe porque estou vestido assim? -- puxou assunto sem o menor pudor. Estou assim porque vim ver o meu amor. E sabe o que ela fez? Riu de mim. Disse que o meu palitó era cafona, que minha blusa parecia de velho. E eu... eu só queria vê-la receber o diploma... Saí de fininho. Ela não é tão boa quanto eu imaginava. Ela é ruim. Tá vendo o meu celular? Já me ligou duas vezes. Não vou voltar para lá. Eu poderia suportar a pior sacanagem de um amigo dela, e até da família, mas jamais imaginei ouvir o que eu ouvi da boca dela. Ela não odeia só os meus sapatos, a minha calça marrom, a minha
camisa xadrez. Ela odeia quem eu sou. Sabe quanto sacrifício eu fiz para ter esse paletó?
Silêncio.
-- ... ela queria que eu fosse uma coisa que eu descobri que eu não sou e todas as vezes que eu mostrar o xadrez brega dentro de mim, ela vai me olhar com a aquela cara de nojo e soltar o seu veneno amargo... O que eu vim fazer aqui? O que? Vou para casa. Matei o meu dia de serviço para isso...
O vagão chegou urrando dolorosamente os seus sons metálicos. A porta abriu. E as pernas cumpridas na calça marrom desapareceram minguadas na multidão de transeuntes.
Sobre o blog
É aqui que eu planto o meu silêncio e vejo brotar arte.
É aqui que eu me reinvento e abro espaço para o novo chegar.
Futures amores, sejam bem-vindos!
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