FUTUROS AMORES

Um blog sobre amor, arte e acaso.

21 de jan de 2011

Meus clássicos favoritos - parte 2

Postado por Priscila |

Só o acaso pode nos parecer uma mensagem.
Aquilo que acontece por necessidade,
aquilo que é esperado e se repete cotidianamente é coisa muda apenas.
Somente o acaso tem voz.
Tenta-se ler no acaso como as ciganas lêem no fundo de uma xícara
os desenhos deixados pela borra de café.


Clássico nº 2: A insustentável leveza do ser de Milan Kundera.

Quando criança você se imaginava num programa de entrevistas? Eu sim. Adorava a pergunta: "- qual o seu livro favorito? E filme?" Naquela época, a resposta era a mesma de toda miss: "O Pequeno Príncipe". Mas eu desisti de citar esse livro porque na primeira vez que me perguntaram isso, riram na minha cara quando eu respondi. Esse foi um daqueles instantes em que a gente descobre como o mundo é cruel (ou melhor, alguns adultos)...
E aos pouco, fui sentindo que esse clássico já não falava tanto do meu universo. Não me tocava tanto o coração como antes. E aos poucos fui me sentindo órfão...

Qual seria o meu livro favorito depois dos 20 anos? Pergunta difícil! Tudo o que eu lia achava legal, mas nada que me apaixonasse... E foi um dia, debaixo de uma amendoeira, num dia cinza e tristinho em Niterói, que me apresentaram a obra de Milan Kundera que mudaria a minha vida (literalmente): A insustentável leveza do ser.


Segue dez razões para ler esse clássico!


1- O nome do livro já é tudo: "A insustentável leveza do ser". Daí você já tem uma prévia do que virá como prato principal;

2- Na primeira página do livro, Kundera já começa citando Nietzsche e o "mito do eterno retorno" que pode se aplicar a tudo, inclusive aos relacionamentos amorosos. É arrebatador!

3- Os capítulos do livro são curtos, e ele trabalha a literatura como um ensaio filosófico. A discussão sobre o peso e a leveza é perturbadora. Veja o que disse Ítalo Calvino sobre o livro:

“O peso da vida, para Kundera, está em toda forma de opressão. O romance nos mostra como, na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba bem cedo se revelando de um peso insustentável. Apenas, talvez, a vivacidade e a mobilidade da inteligência escapam à condenação – as qualidades de que se compõe o romance e que pertencem a um universo que não mais aquele do viver” (IN: Seis propostas para o próximo milênio)

4- O livro é dividido em 7 partes: A leveza e o peso; A alma e o corpo; As palavras incompreendidas; A alma e o corpo; A leveza e o peso (sic); A grande marcha; O sorriso de Karenin. A minha parte favorita é a terceira. Não tanto pelo conteúdo, mas pela forma como ela foi estruturada. Nesse trecho da obra, o autor discute a relação de Sabina (uma artista plástica) e Franz (um professor universitário sem carisma) através de um “Pequeno léxico de palavras incompreendidas” onde o autor aponta conceitos como mulher, música, cemitério etc. do ponto de vista de cada personagem e conclui:

“Sem dúvida, podemos agora compreender melhor o abismo que separava Sabina de Franz: ele a escutava falar de sua vida avidamente, e ela o escutava com a mesma avidez. Compreendiam exatamente o sentido lógico das palavras que diziam, mas sem ouvir o murmúrio do rio semântico que corria através dessas palavras.”

5- Além do “mito do eterno retorno”, ele desenvolve o conceito de “kitsch”, apresenta o drama vivido pela República Tcheca com a invasão soviética, e usa as músicas de Beethoven para explicar relacionamentos como ninguém!

6- O autor se apresenta como narrador sem o menor escrúpulo e ainda adverte aos leitores que o livro não deve ser lido usando o artifício do “faz de conta que as personagens existem” porque elas não são reais. As personagens são arquétipos. Tomas nasceu da expressão “einmal ist keinmal” (uma vez não conta, uma vez é nunca) e Teresa nasceu dos "borborigmos", ou o ronco do estômago. Sabina, na minha hipótese, nasceu do seu chapéu coco e Franz é a metade Kitsch de Sabina.

7- O livro é repleto de erotismo sem ser vulgar. Bem diferente do filme que optou por concentrar sua narrativa nas cenas sensuais (uma verdadeira pornô chanchada!). O que foi muito prejudicial. O sexo, a nudez e as falas sobre a relação dos corpos não eram gratuitas no livro. O filme matou toda a filosofia da narrativa erótica de Kundera.

8 – O livro não tem uma linha cronológica reta. Ele vai e volta no tempo. O que torna a trama mais interessante e imprevisível. Adoro! Infelizmente, o filme optou pela linha da cronologia previsível, destruindo toda a arquitetura temporal tecida por Kundera... Uma lástima! O filme só vale por conta da interpretação de Juliette Binoche (novinha!) como Teresa e Daniel Day Lewis como Tomas ( o tempo foi generoso para Daniel).


9- O livro é repleto de citações fortes e inesquecíveis, tais como:

“(...) as metáforas são coisas perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora”.

 
“O acaso tem seus sortilégios, a necessidade não. Para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se encontrem nele desde o primeiro instante como os pássaros nos ombros de São Francisco de Assis”.

10- Logo nos primeiros capítulos do livro o autor informa que as personagens morreram. Eu, particularmente, fiquei agoniada tentando imaginar como ele iria terminar o livro se já sabíamos que as personagens morreram. É o vício da literatura romântica onde tudo terminar em “happy end” ou no fim absoluto e incontestável: a morte. E o autor, magistralmente, termina o livro deixando a insustentável leveza pairando no ar...


ATENÇÃO!!! FUTUROS AMORES ADVERTE:

JAMAIS leia esse livro se estiver vivendo um relacionamento! Eu e mais três amigos apelidamos esse livro de “o livro do capeta” (rs). TODOS (inclusive a minha pessoa) que leram este livro quando estavam comprometidos, se separaram... Daí você pode vislumbrar a profundidade das reflexões que ele propõe... No mais, não há contraindicação.  ; D

19 de jan de 2011

Meus clássicos favoritos - parte 1

Postado por Priscila |

"Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões se deprimem diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do Céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora!"
(Trecho do Coro da 9ª Sinfonia de Beethoven inspirado no poema "Ode à Alegria" de Schiller)


Clássico nº1: BEETHOVEN - 9ª Sinfonia  (instrumental)

Já achava Beethoven uma figura curiosa graças ao Schroeder do Snoopy. Depois, ele conquistou a minha admiração na Insustentável Leveza do Ser com o seu "-Ess muss sein!". Mas nada me arrebatou mais do que ver e ouvir a Nona Sinfonia executada no filme Copying Beethoven ( mal traduzido como "O Segredo de Beethoven").

O filme conta a história de Beethoven e da sua última composição - 9ª Sinfonia -, criada quando ele já estava surdo. Na trama, o compositor conta com a ajuda de uma jovem estudiosa de música para executar sua obra. O filme é de uma delicadeza incrível e fica ainda mais belo ao contrastar com a personalidade visceral de Beethoven.

 É belíssimo! BRAVO!!!

16 de jan de 2011

BASTA!

Postado por Priscila |


Cansei de brincar sozinha...

14 de jan de 2011

The book is on...

Postado por Priscila |


"The Shelf". Prateleiras "The Shelf". Um nome nada criativo para uma marca de prateleiras! Pensei.

- Me vê três dessas prateleiras, por favor!

Comprei. Paguei. Levei. Instalei. Quer dizer, minha mãe instalou. Sou péssima com furadeira, brocas e afins...

Agora, bora arrumar a bagunça.

Nunca pensei que fosse tão difícil arrumar livros numa prateleira! É preciso ter cuidado para não exceder o peso, descobrir o tamanho dos livros que podem caber ali e por aí vai... Mas isso era o menor dos meus problemas. O difícil mesmo era decidir quem ia ficar com quem.

Foi aí que me lembrei das festas em que o anfitrião tem todo o cuidado em escolher quem vai sentar com quem a mesa. Misturar tias que se odeiam, por exemplo, pode transformar a festa em assunto de polícia. E no caso dos livros, pode ser pecado mortal!

No chão, bem no canto, escondido, permanecem os livros religiosos e de auto-ajuda. Pra que mostrar pra todo mundo que eu não sou perfeita, que sofro e que quero me entender? Pra que mostrar que gosto, de vez em quando, de palavras que me lembrem da minha humanidade, mesmo quando escritas por Paulo Coelho? Pra quê?

No canto esquerdo, os livros acadêmicos, pesados, com capas enfadonhas, alguns já mofados dos sebos. Esses até podem conferir alguns status quando visualmente apreciados, mas só entre os meus patrícios... E como esse tipo de gente não costuma ter vida social e dificilmente visita alguém, é melhor deixar no canto esquerdo mesmo, à sombra dos clássicos.

Ah, os clássicos! Todo mundo conhece, mas nunca leu! Eu, além de conhecer e de não ter lido alguns, faço questão de comprar e deixar na prateleira. É um ato de colecionar inconsciente. Sou bibliófila e não sabia. No centro, Frankestein seguido da Divina Comédia e Admirável Mundo Novo. Depois A Insustentável Leveza do Ser, A Paixão Segundo G.H. e Em Busca do Tempo Perdido. Por cima de tudo: O Pequeno Príncipe. Hum... Apesar de clássico, O Pequeno Príncipe não caiu bem aqui... Acho que vou trocá-lo por Memória de Minhas Putas Tristes. Combina melhor. Feito! Vou colocar o Pequeno Príncipe na prateleira de baixo, junto com os livros infanto-juvenis.

Segue então O Pequeno Príncipe, Alice no País das Maravilhas e Harry Potter 1, 2, 3 e 4... Céus! HP junto de Alice e Le Petit Prince! É o fim dos tempos! Pior: não há mais espaço. Eles terão que ficar juntos...
E que isso me sirva de lição para não confundir jamais um clássico com um best-seller e vice-versa! E é fácil de lembrar: seis volumes de Harry Potter e nenhuma epígrafe para a eternidade! É... O mercado editorial às vezes é tão cruel como a Rainha de Copas e tão nocivo como os baobás.

Fim da arrumação. All the books are on the shelves.