Quantas vezes assisti ao filme "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças"? Não sei. Perdi a conta! Apesar de já conhecer as falas de cor, a cada nova exibição percebo algum detalhe que até então passou desapercebido.
Uma das últimas coisas que descobri foi que "Clementine" é, de fato, uma espécie de "tangerina"(1).
Além disso, fiquei dias pensando: se Clementine e Joel realmente apagaram a memória que um tinha do outro, como poderiam ter se reencontrado em Montauk? Como não foi possível apagar as ligações afetivas?
Com a ajuda do filósofo Henri Bergson e o seu Livro "Matéria e Memória" (2) , cheguei a algumas respostas:
1 - Temos a tendência a acreditar que nossas ligações afetivas são construções da memória. Ou seja, gostamos de alguém pela "história" que contruímos com ela.
2 - Para Bergson, uma memória jamais é deletada. Na verdade,para ele, quando há a perda de memória, o que se perdeu é a capacidade do cérebro de acessá-la. Mas suponhamos que seja possível realmente apagar a memória. Por que Joel e Clementine se reencontraram em Montauk? Porque mesmo apagando uma lembrança, a simples experiência de ter uma pessoa especial em nossas vidas nos transforma. E essa transformação marca a presença dela em nós para sempre. Nossas escolhas, nossos hábitos, nossos gostos receberam a dose das cores trazidas por esses "encontros".
Termino essa breve reflexão com um trecho do livro do Bergson:
"Nosso caráter, sempre presente em todas as nossas decisões, é exatamente a síntese atual de todos os nossos estados passados".
Portanto, mesmo sem a memória um do outro, Joel e Clementine, estariam presentes um na vida do outro, através do caráter.
__________________________
(1) Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Clementines
(2) BERGSON, Henri, Matéria e Memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito - 3ª edição, São Paulo, Martins Fontes, 2006.
Série "Reza a lenda": 1- Andar de bicicleta.
Ainda sob os efeitos da exposição "Vertigem" dos grafiteiros Otávio e Gustavo Pandolfo (Osgemeos), pesquisei na internet um pouco mais sobre o trabalho deles. Encontrei essa imagem que, confesso, me chamou muito a atenção.
Uma mulher, com o peito aberto, mostra o coração boiando em águas tranquilas. Nos ombros, algo que lembra uma vara de pescar. Do lado direito, peixes coloridos. Do lado esquerdo, um baicú e um homem.
Num primeiro momento, a imagem me conquistou pelo colorido, mas depois, analisando mais de perto, percebi que estes elementos não estavam ali em vão. Havia um significado.
O peito aberto da mulher, onde o coração boia soberano, é simbolicamente o local onde os peixes e o homem foram pescados. Chamo a atenção para a forma como estão expostos os frutos da pescaria: os peixes vistoso em oposição ao baiacú e ao homem.
Não é preciso ser pescador para saber que o baiacú é um peixe dificilmente consumido como alimento, pois produz uma substância tóxica que pode ser letal em caso de ingestão. Seria mera coincidência o homem ter sido colocado ao seu lado? Creio que não. O lado esquerdo do peito da figura feminina, ao meu ver, representa a má pescaria. Aquilo que não nos serve nem como alimento do corpo, nem como alimento da alma. Talvez, como o baiacú, o homem não deve ser deliciado porque é tóxico e letal...
Além disso, o homem não parece ter sido fisgado por um anzol, mas enforcado, perdendo o ar assim como os peixes que estão fora d'água. O corpo imóvel deduz a sua morte. Ele não poderá mais desfrutar das águas calmas onde o coração habita.
Mas uma questão se coloca: o homem foi "pescado" por engano ou propositalmente retirado das águas que banham o coração? Essa pergunta talvez não tenha resposta. Mas uma coisa é certa: dentro ou fora d'água, um baiacú é sempre um baiacú, é tóxico e letal. E se a comparação for razoável, e se a análise for plausível, a coisa mais acertada que a "pescadora" poderia ter feito era ter tirado de perto do coração a ameaça letal do "homem-baiacú".
É bom acordar de um sonho ruim. Um simples abrir de olhos e tudo fica mais claro, mais preciso, mais compreensível.
Prá que ficar tentando transformar pesadelo em sonho? São naturezas distintas!
Como é bom abrir os olhos e acordar! É uma nova chance de revisitar o mundo em cores...
Não é fácil dizer sonhando: "Abra o olho! Acorde!" É preciso algo mais: a vontade, o momento certo, o desencanto. Então, como num feitiço desfeito, os olhos se abrem e estamos de volta a nós mesmos.
E depois a gente ainda se pergunta: "como pude sonhar isso?"
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