
Num dia muito difícil da minha existência, quando tudo parecia perdido, recebi de um amigo querido e distante essa mensagem. Ele não sabia como eu estava, o que sentia, o que passava. Ele simplesmente lembrou de mim e encaminhou essas palavras. Sem saber, essas poucas linhas transformaram a minha jornada!
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E eu que sempre falo de "amores" nesse blog, quero falar de um "amor maior": a compaixão. E que essa mensagem seja como uma rosa perfumada no coração de todos vocês!
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"Nasceste no lar que precisavas,
Vestiste o corpo físico que merecias,
Moras onde melhor Deus te proporcionou, de acordo com teu adiantamento. Possuis os recursos financeiros coerentes com as tuas necessidades, nem mais, nem menos, mas o justo para as tuas lutas terrenas.
Teu ambiente de trabalho é o que elegeste espontaneamente para a tua realização. Teus parentes, amigos são as almas que atraístes, com tua própria afinidade. Portanto, teu destino está constantemente sob teu controle.
Tu escolhes, recolhes, eleges, atrais, buscas, expulsas, modificas tudo aquilo que te rodeia a existência. Teus pensamentos e vontades são a chave de teus atos e atitudes... São as fontes de atração e repulsão na tua jornada vivência.
Não reclames nem te faças de vítima. Antes de tudo, analisa e observa. A mudança está em tuas mãos. Reprograme tua meta, busque o bem e viverás melhor.
Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim."
(Chico Xavier)
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Obrigada Chico por sua coragem, sua dedicação. Deus te abençoe!
Relacionamento: tênis ou frescobol?

Tênis X Frescobol
(Rubem Alves)
Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.
Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?' Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.’
Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: ‘Eu te amo, eu te amo...’ Barthes advertia: ‘Passada a primeira confissão, ‘eu te amo' não quer dizer mais nada.’ É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: ‘Erótica é a alma.’
O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...
A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:
Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: "Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo". A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: "Tens razão, minha querida". A situação está salva e o ódio vai aumentando.
Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.
Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...(O retorno e terno, p. 51.)[...]"
[ilustração: idílio del bosque - Karina Chavin]
"Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada" (Clarice Lispector)
"Um cansaço de existir,
De ser.
Só de ser."
(Fernando Pessoa)
Respire fundo!
"Isso também passa!" (Emmanuel/Chico Xavier)
"Pertencia àquela espécie de gente que mergulha nas coisas às vezes sem saber por que, não sei se na esperança de decifrá-las ou se apenas pelo prazer de mergulhar…”
"Continuo a pensar que quando tudo parece sem saída, sempre se pode cantar. Por essa razão escrevo."
(C.F.A.)
Incompletude.
Para os grandes, as obras acabadas tem pesos mais leves que aqueles fragmentos nos quais o trabalho se estira através de sua vida. Pois somente o mais fraco, o mais disperso encontra sua incomparável alegria no concluir e se sente com isso devolvido à sua vida. Para o gênio, toda e qualquer censura, os pesados golpes dos destinos como o suave sono, cai na industriosidade de sua própria oficina de trabalho (...). (Walter Benjamin)
E assim disse Osho:
Não dizer tudo significa dar uma oportunidade para que o ouvinte complete o que está sendo dito. Todas as respostas vêm incompletas. O importante é tirarmos delas apenas a direção para a nossa caminhada. No momento em que encontrar o limite, você saberá o que irá permanecer.Se alguém estiver tentando compreender intelectualmente, irá fracassar.Não se trata de uma resposta para uma pergunta, mas de algo maior do que a resposta. Trata-se da indicação da própria realidade.
Mesmo no fluxo sempre mutável da vida, há instantes em que chegamos a um ponto de completude. Ao concluir isso, você estará criando condições para que alguma coisa nova possa começar. Use essa pausa momentânea para celebrar ambas as coisas: o encerramento do velho e a chegada do novo.
Até mesmo o que você entende por "incompletude" um dia se completa. Quer conforme o seu desejo, quer não. Aceite e aproveite a oportunidade!
Think positive: - Hay otros!
Hay otros
Danuza Leão
Quando o telefone toca e a secretária diz que é seu patrão que quer falar com você, qual o primeiro e (único) pensamento que lhe ocorre? “É a demissão” —claro. Depois da conversa, ótima, você volta a fita, raciocina e se dá conta de que, se fosse para lhe demitir, ele mandaria outra pessoa. Elementar, mas não adianta: todo mundo é inseguro, mesmo aqueles que dão a impressão de serem os mais seguros do mundo.
Só se é seguro com coisas que tanto faz; mas, quando você olha aquele vestido maravilhoso na vitrine, não compra, mas fica pensando nele sem parar e resolve voltar no dia seguinte, não consegue dormir, pensando que, quando chegar à loja ele já terá sido comprado. E quando o objeto do seu desejo é muito importante, mas muito importante mesmo, você vai pensar que talvez não consiga chegar lá por que o trânsito pode ser interrompido, que a proprietária pode ter morrido e por isso a loja vai estar fechada, esse tipo de coisa.
Quando encontra o apartamento dos seus sonhos, enquanto o despachante está examinando a documentação, são três tranqüilizantes por dia. É claro que a cidade inteira, o universo inteiro só quer uma coisa: aquele mesmo apartamento. E sendo assim, alguém vai chegar e oferecer o dobro do preço sem se importar se a papelada está ou não em ordem, e você vai ficar sem ele, claro. Ele, o único apartamento do mundo.
Já quando é você que resolve vender o seu, por mais maravilhoso que seja, uma certeza você tem: ninguém, nin-guém, vai se interessar por ele. Não importa que seja de frente para o mar e tenha uma vista esplendorosa, varanda e ar condicionado central e que o preço seja mais do que justo. Mentalmente você já se prepara para fazer um desconto—10% ou 20% o que quiserem, o que oferecerem; num momento de total insegurança, você chega a pensar em doar o imóvel para uma instituição de caridade — se alguma delas quiser, o que não é certo.
Os paranóicos de carteirinha vão mais longe: basta que o telefone toque para que eles estremeçam, com medo de uma má notícia. E se tocar de madrugada, aí é tragédia certa. E existem também aqueles que estão com a vida ótima, tudo em cima, todo mundo com saúde, os amigos bem de vida e passam o tempo se perguntando quanto tempo aquilo vai durar. Ninguém é feliz para sempre; por que ele seria? E se tiver uma doença grave? Doença não avisa, e 50% da população com mais de 85, sofre do mal de Alzheimer. Ele tem 42, mas um dia vai ter 85 – isso se viver até lá. E quando isso acontecer, quem vai cuidar dele?
E quando telefonam do laboratório para dar o resultado do exame de sangue? E quando o namorado lhe deixa?
Homens e mulheres deixados dos 15 aos cem anos, nesse momento pensam exatamente a mesma coisa: nunca mais vou arranjar outro/outra. Não adianta nada. Que você seja linda, inteligente, charmosa, interessante. Sabe o que é nunca mais? Pois é: nunca mais. E a coragem para se levantar da cama de manhã? Se não tivesse de trabalhar, ficava deitada o dia inteiro, bem vaga, se achando o lixo da humanidade. Aliás, ela merece: nunca foi uma boa filha, uma boa mãe, nem uma boa amiga e está apenas colhendo o que plantou. E se no lugar de dedicar tanto tempo aos prazeres da vida tivesse se engajado a sério num projeto político, o país não estaria do jeito que está. A culpa de tudo é dela, claro.
Não há nenhum exagero em nada que você leu; todas as pessoas são assim.
Mas existem pessoas como Maria Felix, que, num belo documentário passado na televisão em sua homenagem, declarou que nunca sofreu por um homem, por que nessa hora sempre pensou: “Hay otros”.
“Hay otros” —e isso vale para quase tudo.
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Ju, valeu pela visita ao blog! E mais: muito obrigada pelo presente! Adorei esse texto da Danuza Leão! A casa é sua! E pode sentar nesse sofazão vermelho quando quiser!!! Beijinhos
O tamanho que somos.
1- Pensando como Alice
"(...)desta vez Alice encontrou uma pequena garrafa sobre a mesa ("que certamente não estava sobre aqui antes", disse Alice) e amarrada ao redor do gargalo estava uma etiqueta com as palavras "BEBA-ME" lindamente impressa em palavras grandes. (...) E ela bebeu rapidamente.
"Que sensação estranha", disse Alice. "Eu devo estar encolhendo como um telescópio!"
(...) ela esperou alguns minutos para ver se ainda iria encolher mais: ela sentiu-se um pouco nervosa em relação ao fato "porque isso pode resultar, você sabe", disse Alice para si mesma, "em eu sumir como uma vela".
(...)"Vamos, não há razão para chorar assim", disse Alice. Eu lhe aconselho deixar isso pra lá neste minuto." Normalmente ela se dava bons conselhos (embora raramente os seguisse) e às vezes repreendia-se tão severamente que chegava a ficar com lágrimas nos olhos, e uma vez ainda lembrava-se de ter tentado boxear suas próprias orelhas por ter trapaceado consigo mesma em um jogo de críquete que jogava com ela mesma, pois essa curiosa criança gostava de fingir ser duas pessoas.
"Mas não adianta agora", pensou a pobre Alice,"querer ser duas pessoas! Porque é suficientemente difícil para mim ser uma pessoa respeitável."
(...)Logo seu olho caiu sobre uma pequena caixa de vidro que jazia sob a mesa: ela abriu-a e encontrou um pequeno bolo, no qual a palavra "COMA-ME" era lindamente inscrito. "Bem, eu vou comê-lo", pensou Alice, "e se isso me fizer crescer, ótimo".
Alice comeu um pedacinho e disse ansiosamente para si mesma."E agora? E agora?", colocando a mão no topo da cabeça para sentir se estava crescendo. Ela ficou surpresa ao perceber que permanecera do mesmo tamanho. Para falar a verdade, é isso o que normalmente acontece quando se come um bolo, mas Alice já estava acostumada a não esperar nada senão coisas extraordinárias acontecendo, quando as coisas aconteciam de uma maneira normal parecia uma chatisse.
(...)Como não aconteceu nada, a menina não demorou a comer o bolo todo!
"Que curioso! Que curioso! Agora eu estou esticando como o maior telescópio que nunca houve!" disse Alice.
"Puxa! Puxa! Como tudo está tão estranho hoje! E ontem as coisas estavam tão normais! O que será que mudou à noite? Deixe-me ver: eu era a mesma quando acordei de manhã? Tenho a impressão de ter me sentido um pouco diferente. Mas se eu não sou a mesma, a próxima questão é "Quem sou eu?" Ah! esta é a grande confusão!"
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2- À moda Martha Medeiros
A FITA MÉTRICA DO AMOR - Martha Medeiros
Como se mede uma pessoa? Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento. Ela é enorme pra você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado. É pequena pra você quando só pensa em si mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.
Uma pessoa é gigante pra você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto. É pequena quando desvia do assunto.
Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma. Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês.
Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições? Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.
É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações. Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma. O egoísmo unifica os insignificantes.
Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.
Meditação para uma noite de sexta-feira...
Namastê!
"Aquele que muito pergunta se perde na selva da filosofia. Deixe que as questões venham e passem. Olhe para a infinidade de perguntas da mesma forma que você olha as pessoas deslocando-se na rua - nada a lhes dar, nada a lhes pedir - com desapego, mantendo-se distante. Quanto mais distância houver entre você e suas questões, melhor. Pois é nesse espaço que a resposta irá surgir."
"Não se preocupe muito com as coisas utilitárias. Em lugar disso, lembre-se sempre de que você não está vivendo aqui para se tornar um produto. pois isso seria indigno. Você não está aqui apenas para tornar-se cada vez mais eficiente, e sim para tornar-se cada vez mais vivo. Está aqui para ficar cada vez mais inteligente. Está aqui para ficar cada vez mais feliz, feliz até o êxtase."
"Quando você deseja algo, sua alegria depende disso. Se esta for retirada de você, você se sente miserável. Se for dada a você, você ficará feliz, mas só por uns momentos. Isso também precisa ser compreendido. Sempre que seu desejo é realizado, ele o é apenas naquele momento em que você sente o prazer. É passageiro, pois assim que você conseguir o que queria, sua mente novamente começa a desejar mais, desejar outras coisas. A mente existe no ato de desejar e, portanto, a mente nunca pode deixá-lo sem desejos. Se você não estiver desejando nada, a mente morre imediatamente. Esse é todo o segredo da meditação."
"Sempre que as pessoas se tornam gananciosas, elas ficam bem apressadas, e tentam encontrar meios de ir mais rápido. Estão sempre correndo pois acreditam que a vida está se esgotando. Tempo é a eternidade. Sempre foi e sempre será. E você sempre esteve aqui e sempre estará aqui. Então abandone a ambição e não se incomode com o resultado. Às vezes acontece que, devido a sua impaciência, você perde muitas coisas."
Dois perdidos na selva dos relacionamentos...

E assim disse OSHO:
"A alegria do amor só é possível se você tiver conhecido a alegria de estar sozinho, porque só então você terá algo para compartilhar. De outra forma, serão dois mendigos se encontrando, agarrando-se um ao outro, mas não poderão obter o êxtase. Criarão infelicidade para ambos, porque cada um irá esperar em vão, que o outro o preencha. O outro está esperando a mesma coisa. Não podem se completar. Ambos estão cegos, não podem ajudar um ao outro.
Ouvi contar de um caçador que se perdeu na selva. Por três dias ele não conseguiu encontrar ninguém para perguntar pelo caminho de volta, e ele estava ficando cada vez mais assustado, entrando em pânico - três dias sem comer e com um medo constante de animais selvagens. Por três dias ele não foi capaz de dormir; ele ficava sentado acordado em alguma árvore, com receio de ser atacado. Havia cobras, leões, e outros animais selvagens.
No quarto dia de manhã cedo, ele viu um homem sentado debaixo de uma árvore. Você pode imaginar sua alegria. Ele correu, abraçou o homem, e disse: "Que alegria!" e o outro homem também o abraçou, e ambos estavam imensamente felizes. Depois eles perguntaram um ao outro, "Por que você está tão contente?"
O primeiro disse, "Eu estava perdido e esperava encontrar alguém." E o outro disse: "Eu também estou perdido e esperava encontrar alguém. Mas se ambos estamos perdidos então nossa felicidade é pura tolice. Agora estamos perdidos juntos!"
É isso que acontece: você está sozinho, a outra pessoa está sozinha. Então vocês se encontram. Primeiro há a lua-de-mel, o êxtase do encontro, o êxtase por não estarem mais sozinhos. Mas dentro de três dias ou, se você for inteligente o bastante, dentro de três horas... depende de quão inteligente você for. Se for tolo, irá levar mais tempo pois pessoas tolas são aquelas que não aprendem. Caso contrário, uma pessoa inteligente pode perceber em três minutos... "O que estamos tentando fazer? Não vai funcionar. Essa outra pessoa está tão sozinha quanto eu. Agora iremos viver juntos, serão duas solidões juntas. Juntar duas feridas não faz com que elas se curem."
Cada um de nós é parte dos outros, nenhum homem é uma ilha. Pertencemos a um continente invisível porém infinito. Nossa existência não possui limites.
Contudo, essas experiências só são vividas pelas pessoas que estão se aperfeiçoando, que estão em um estado de amor tão grande consigo mesmas que podem fechar os olhos, ficar sozinhas e ainda assim em êxtase absoluto. Essa é a essência da meditação.
Meditação significa estar em êxtase dentro da sua solidão. Mas, quando você encontra o êxtase em sua solidão, logo esse êxtase se torna tão grande que você não pode contê-lo. Começa a transbordar de você. E quando começa a transbordar, torna-se amor. A meditação permite que o amor surja. E as pessoas que não conheceram a meditação jamais conhecerão o amor. Podem fingir que amam, mas não podem amar de fato. Apenas fingem, porque não têm nada para dar, não estão transbordantes. Amar é compartilhar. Mas antes que você possa compartilhar, você precisa ter algo para dar. A meditação deveria ser a primeira coisa. A meditação é o centro, o amor é a circunferência em torno dela. A meditação é a flor, o amor é o perfume."
E assim falou Martha Medeiros...
Ah, Martha Medeiros! É de dar raiva como você diz exatamente o que eu queria dizer! Lendo seus textos tudo parece tão fácil!
Estive pensando muito sobre o que eu li, Martha. Queria me importar menos com as coisas que não dão certo, com os desencontros, com os maus entendidos, com os telefones que acabam a bateria bem na hora do "Alô"... Mas como não me importar??? Está fazendo 38ºC no Rio e eu nessa vida de solteira!
Ah, Martha! Se você soubesse... Pera! Mas o que é isso aqui?
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A IMPONTUALIDADE DO AMOR
(Martha Medeiros)
Você está sozinho. Você e a torcida do Flamengo. Em frente a tevê, devora dois pacotes de Doritos enquanto espera o telefone tocar. Bem que podia ser hoje, bem que podia ser agora, um amor novinho em folha.
Trimmm! É sua mãe, quem mais poderia ser? Amor nenhum faz chamadas por telepatia. Amor não atende com hora marcada. Ele pode chegar antes do esperado e encontrar você numa fase galinha, sem disposição para relacionamentos sérios. Ele passa batido e você nem aí. Ou pode chegar tarde demais e encontrar você desiludido da vida, desconfiado, cheio de olheiras. O amor dá meia-volta, volver. Por que o amor nunca chega na hora certa?
Agora, por exemplo, que você está de banho tomado e camisa jeans. Agora que você está empregado, lavou o carro e está com grana para um cinema. Agora que você pintou o apartamento, ganhou um porta-retrato e começou a gostar de jazz. Agora que você está com o coração às moscas e morrendo de frio.
O amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina. Você passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga, e mal repara em outro alguém que só tem olhos pra você. Ou então fica arrasado porque não foi pra praia no final de semana. Toda a sua turma está lá, azarando-se uns aos outros. Sentindo-se um ET perdido na cidade grande, você busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na locadora, irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida. O amor é que nem tesourinha de unhas, nunca está onde a gente pensa.
O jeito é direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste. Seu amor pode estar no corredor de um supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco, pode estar pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro. Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior mole. O amor está em todos os lugares, você que não procura direito.
A primeira lição está dada: o amor é onipresente. Agora a segunda: mas é imprevisível. Jamais espere ouvir "eu te amo" num jantar à luz de velas, no dia dos namorados. Ou receber flores logo após a primeira transa. O amor odeia clichês. Você vai ouvir "eu te amo" numa terça-feira, às quatro da tarde, depois de uma discussão, e as flores vão chegar no dia que você tirar carteira de motorista, depois de aprovado no teste de baliza. Idealizar é sofrer. Amar é surpreender.
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Tá bom, Martha! Vou dormir pensando nisso também!
As palavras não dizem tudo...
E mais uma vez um texto de Martha Medeiros chega na hora certa... Quantas perguntas para uma simples resposta!
Esse pacto silêncioso que vem em forma de prece é o meu melhor que se espalha pelo infinito eterno desse universo...
Entrei na sua vida sem você perceber quem eu era. Mas eu te reconheço. E não sei quanto tempo levará para você despertar...
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Sentir-se amado
Martha Medeiros
O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama.
Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.
Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se.
A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também?
Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.
Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. "Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho".
Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. "Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando? Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato."
Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.
Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.
"Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
depende de quando e como você me vê passar."
"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato.Ou toca, ou não toca."
(Clarice Lispector)
O consumo dos símbolos X Felicidade
Apesar de estudar consumo, não gosto da dimensão consumista que é dada ao Natal. Aliás, estudo consumo porque gostaria muito de pensar as relações humanas para além dessa relação mediada pelos objetos.
Hoje recebi esse texto do Frei Beto e me encantei. Gostaria de compartilhar com vocês como uma forma de refletirmos sobre o que é importante para nós: ser ou ter?
É claro que necessidades básicas precisam ser atendidas, mas quantas vezes condicionamos a nossa felicidade aos objetos? "Quando eu tiver uma casa própria, serei feliz"! O que esquecemos é que podemos até ter a "casa", mas o "lar" não se pode comprar! Nem o lar, nem as relações pessoais verdadeiras, nem o amor.
É hora de repensarmos sobre esse excesso de valor que damos aos objetos!
Segue o texto!
Passeio Socrático
FREI BETO
Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças. "Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse. O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável. É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais - manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico.
A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.
Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos "Manuscritos econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que "o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós." O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão. Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígene cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado na adega, uma jóia?
Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista a gata borralheira transforma-se em cinderela... Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder. Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.
Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc. Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas. Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira.
Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. "Nada poderia ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói." E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.
Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo. "Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".
Prá que esperar?
"(...) Um amor pode esperar? Uma resposta pode esperar? Um e-mail pode esperar? Isto acaba de me ocorrer... Quais são as prioriades, quais são os impedimentos para que estas coisas aconteçam?
Reflita."(C.H.)
Palavra-mimo.

"E que os futuros amores escutem os ecos dessa mensagem como um chamado, um canto de afirmação pela vida, que os encontros, se são encontros, são como ritornelos nietzschenianos que nos incitam à coragem do eterno retorno do mesmo e à delicadeza das pequenas diferenças como frutas vermelhas a estalar no céu de uma boca ávida."
p.s. Obrigada por essas palavras. Obrigada por esse mimo. Como não sabia o que dizer, preferi transformar em imagem, em post.
Desejo que desejes - Martha Medeiros
Eu desejo que desejes ser feliz de um modo possível e rápido, desejo que desejes uma via expressa rumo a realizações não utópicas, mas viáveis, que desejes coisas simples como um suco gelado depois de correr ou um abraço ao chegar em casa.
Desejo que desejes com discernimento e com alvos bem mirados. Mas desejo também que desejes com audácia, que desejes uns sonhos descabidos; e que ao sabê-los impossíveis não os leve em grande consideração, mas os mantenha acesos, livres de frustração.
Desejes com fantasia e atrevimento, estando alerta para as casualidades e os milagres, para o imponderável da vida, onde os desejos secretos são atendidos. Desejo que desejes trabalhar melhor, que desejes amar com menos amarras, que desejes parar de fumar, que desejes viajar para bem longe. E desejes voltar para teu canto, desejo que desejes crescer. E que desejes o choro e o silêncio, através deles somos puxados pra dentro.
Eu desejo que desejes ter a coragem de se enxergar mais nitidamente. Mas desejo também que desejes uma alegria incontida, que desejes mais amigos, e nem precisam ser melhores amigos, basta que sejam bons parceiros de esporte e de mesas de bar, que desejes o bar tanto quanto a igreja, mas que o desejo pelo encontro seja sincero. Que desejes escutar as histórias dos outros, que desejes acreditar nelas e desacreditar também, faz parte este ir-e-vir de certezas e incertezas. Que desejes não ter tantos desejos concretos, que o desejo maior seja a convivência pacífica com outros que desejam outras coisas. Desejo que desejes alguma mudança, uma mudança que seja necessária e que ela não te pese na alma.Mudanças são temidas, mas não há outro combustível para essa travessia.
E desejo, principalmente, que desejes desejar, que te permitas desejar, pois o desejo é vigoroso e gratuito, o desejo é inocente. Não reprima teus pedidos ocultos, desejo que desejes vitórias, romances, diagnósticos favoráveis, mais dinheiro e sentimentos vários. Mas desejo, antes de tudo, que desejes, simplesmente!
"London, 31 de janeiro de 1974
Vem, que eu quero te mostrar o papel cheio de rosas nas paredes do meu novo quarto, no último andar, de onde se pode ver pela pequena janela a torre de uma igreja. Quero te conduzir pela mão pelas escadas dos quatro andares com uma vela roxa iluminando o caminho para te mostrar as plumas roubadas no vaso de cerâmica, até abrir a janela para que entre o vento frio e sempre um pouco sujo desta cidade. Vem, para subirmos no telhado e, lá do alto, nosso olhar consiga ultrapassar a torre da igreja para encontrar os horizontes que nunca se vêem, nesta cidade onde estamos presos e livres, soltos e amarrados. Quero controlar nervoso o relógio, mil vezes por minuto, antes de ouvir o ranger dos teus sapatos amarelos sobre a madeira dos degraus e então levantar brusco para abrir a porta, construindo no rosto um ar natural e vagamente ocupado, como se tivesse sido interrompido em meio a qualquer coisa não muito importante, mas que você me sentisse um pouco distante e tivesse pressa em me chamar outra vez para perto, para baixo ou para cima, não sei, e então você ensaiasse um gesto feito um toque para chegar mais perto, apenas para chegar mais perto, um pouco mais perto de mim. Então quero que você venha para deitar comigo no meu quarto novo, para ver minha paisagem além da janela, que agora é outra, quero inaugurar meu novo estar-dentro-de-mim ao teu lado, aqui, sob este teto curvo e quebrado, entre estas paredes cobertas de guirlandas de rosas desbotadas. Vem para que eu possa acender incenso do Nepal, velas da Suécia na beira da janela, fechar charos de haxixe marroquino, abrir armários, mostrar fotografias, contar dos meus muitos ou poucos passados, futuros possíveis ou presentes impossíveis, dos meus muitos ou nenhuns eus. Vem para que eu possa recuperar sorrisos, pintar teu olho escuro com kol, salpicar tua cara com purpurina dourada, rezar, gritar, cantar, fazer qualquer coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida. Porque nada mais sou além de chamar você agora, porque tenho medo e estou sozinho, porque não tenho medo e não estou sozinho, porque não, porque sim, vem e me leva outra vez para aquele país distante onde as coisas eram tão reais e um pouco assustadoras dentro da sua ameaça constante, mas onde existe um verde imaginado, encantado, perdido. Vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois.” - Caio Fernando Abreu
Desencanto (Manuel Bandeira)
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.
_________________________________
p.s. Hoje está doendo. Doendo tanto, que só Bandeira entenderia.
Crônica de um "gajo fixe" ou histórias de tubarão.
Hoje me deparei com essa expressão portuguesa que há muito tempo não houvia: gajo fixe. Essa expressão é usada para marcar o tipo do cara legal, sedutor, que te faz rir e sabe falar sobre tudo. Esse tipo de "gajo" te leva ao suspiro...Durante esses três dias estive com um "gajo fixe". Ele era o cara dos sonhos. Soube ser "certinho" ou "malicioso" nas horas certas.
Não me senti nem Teresa, nem Sabina. Definitivamente não se tratava de uma história do Milan Kundera. Mas eu me senti diferente: eu me senti dona e senhora de mim.
Em nenhum momento em que estive com ele me senti um objeto. Ele não me tratava como mais uma na sua estatística amorosa (mesmo que eu fosse). Ele estava comigo e estava inteiro (apesar de às vezes ficar tenso na praia com medo de ser assaltado. rs).
Nem o problema da língua atrapalhou... Rimos um bocado. Ele falou mal dos companheiros de quarto e eu reclamei dos caras que não cheiram bem... E ele respondeu: "Fica tranquila! Eu tomo banho!" Rimos, rimos muito. E quando não estava rindo das histórias sobre os amigos loucos dele, estava rindo com as cócegas que ele me fazia... (Descobriu meu ponto fraco!)
Além de ensinar a dançar samba, comer churrasco com guaraná, ensinei a ele a nossa modalide de beijo. Com mais língua, com mais intensidade, com mais calor... E ele logo aprendeu a variar o beijo: da mansidão à tempestade.
Esse "gajo fixe" já se foi, mas foi bom termos ficado juntos esses dias. Eu tinha me esquecido de como era bom andar de mãos dadas na rua, ganhar beijo na testa, levar um "xero" daqueles no cangote... Tinha me esquecido de como é bom receber gentilezas, afagos inesperados, dançar juntinho sem música...
Quando na despedida eu disse "você terá boas histórias para contar para os seus amigos", ele disse "esse tipo de história é particular. É só nossa". Achei bonito (mesmo que ele tenha dito isso apenas como "frase de efeito").
Vou sentir falta desse "gajo"... Do cheiro, do cabelo fino de anjo, da risada grave, das histórias sobre tubarão...
Ah, os tubarões... Esses doces tubarões...
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É aqui que eu planto o meu silêncio e vejo brotar arte.
É aqui que eu me reinvento e abro espaço para o novo chegar.
Futures amores, sejam bem-vindos!
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