FUTUROS AMORES

Um blog sobre amor, arte e acaso.

13 de mar de 2011

Dança comigo as marés?

Postado por Priscila |

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada.” Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que…

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe,– para dizer alguma cousa,–que era capaz de os pentear, se quisesse.

(Machado de Assis - Dom Casmurro)



***


Nunca me imaginei tendo um oceano nos olhos,
Mas se o tenho,
É porque vejo em você a praia onde as minhas ondas se quebram e voltam a nascer.

Deixe-me penetrar nos seus grãos de areia.
Deixe-me tocar as suas conchas recônditas.
Deixe-me experimentar a firmeza das suas rochas.

Absorve a minha espuma,
Saboreia o meu sal,
Descansa na minha brisa,
Permita-se fluir na minha correnteza,
Prova a delicadeza das minhas águas,
Dança comigo as marés.


Dança comigo as marés?

1 comentários:

Rodrigo disse...

Dancemos as marés, ao som de uma valsa italiana.

Um beijo,
R.